Como o metal adquire a forma das impressões?

Os materiais usados para fazer as placas são sucatas de alumínio provenientes de materiais como latas de refrigerante, panelas usadas, placas velhas e outros (Figura 11), os quais podem servir para a confecção de novas placas devido à propriedade de o alumínio ser infinitamente reciclado. Esses materiais compreendem ligas metálicas contendo predominantemente o alumínio.

Figura 11: Tambor onde Alessandro guarda os materiais metálicos que serão transformados nas placas de túmulos.

No dia seguinte os trabalhos são reiniciados com a preparação do forno, o qual irá servir para aquecer as sucatas de alumínio a alta temperatura e transformá-las em uma liga metálica fundida ou líquida.  “O forno é feito de tijolo refratário, com concreto refratário”. Externamente consiste em um tambor revestido internamente com tijolo e concreto e em seu interior há um recipiente de concreto onde é colocada uma parte da sucata de alumínio. A outra parte é colocada na boca do forno, sobre um orifício circular que tem cerca de 15 centímetros de diâmetro, localizado no centro da tampa do forno (Figura 12).

Figura 12: Vistas do forno onde as sucatas de alumínio são fundidas.

Para fundir os metais, torná-los líquidos, a temperatura do forno precisa atingir valores superiores a 660º Celsius, que é a temperatura de fusão do alumínio. Para isso, o forno é alimentado por dois combustíveis: gás de cozinha, butano, e óleo diesel, uma mistura de hidrocarbonetos de cadeia longa. “O óleo, o gás, é tudo entrada independente”, os combustíveis entram no forno por orifícios laterais “e é tudo dosado de acordo com a pressão do fogo na hora, coloca aos pouco, é de acordo com a pressão”.

Há também uma entrada de ar dentro do forno proveniente de um motor movido à energia elétrica, “aquele motor é uma ventuinha, a parte elétrica é pra tocá essa ventuinha pra dá pressão no forno”, para empurrar grande quantidade de ar para dentro do forno, “é ela que leva o jato de ar, que é onde que dá aquela pressão forte”. O ar contém o gás oxigênio, o qual, como comburente, irá alimentar as reações químicas de combustão. Assim, a quantidade dos combustíveis é regulada conforme a intensidade da chama, a sua “pressão” observada na boca do forno. A chama apresenta coloração amarela brilhante e quanto mais ar entra dentro do forno maior a sua intensidade.

Conforme mencionado, o Alessandro coloca parte das sucatas no recipiente de concreto dentro do forno e outra parte  sobre a boca da tampa para que sejam fundidos. Os menores são colocados no interior e os maiores, como as placas usadas, são colocados na tampa. Essas placas ficam enegrecidas com o fogo “por causa da fumaça e só foligi”, que “não entefere no material não”, a fuligem contém basicamente átomos de carbono e hidrogênio (DORIGON; KRIOUKOV; COSTA, 2000), os quais reagem com o oxigênio do ar durante a queima dos combustíveis no forno e se transformam em dióxido de carbono gasoso.

Quando os metais são fundidos, eles se misturam formando uma liga metálica líquida. As ligas metálicas são geralmente ferrosas (o metal principal é o ferro) e não ferrosas, que têm outros metais diferentes do ferro, tal como as ligas de alumínio que o Alessandro usa. As ligas usadas por ele são ligas mais leves, “macias”, quando comparadas às ligas ferrosas (SILVA, 2007). Como os materiais que o Alessandro usa variam, as placas nem sempre terão a mesma composição e para sabermos quais são os seus constituintes, é preciso levá-las ao laboratório e fazer análises para determinar que outros metais além do alumínio estão presentes e quais são as suas quantidades.

Após a fundição e mistura dos metais no forno, a liga metálica resultante é retirada líquida, ainda quente, com uma concha de cabo grande feita de “inox fundido” (uma liga de ferro com crómio e níquel) (SILVA, 2007). São usadas conchas menores para retirá-la e as conchas maiores são usadas para colocar a liga líquida quente nas fôrmas pelo duto feito na “areia” da segunda fôrma, a qual por estar posicionada acima da primeira, conduz a liga líquida para o local onde foram feitas as impressões na “areia”.

A liga de metais sai incandescente do forno, com intensa cor vermelha amarelada, e, assim, preenche o espaço das impressões. Tão logo penetra nas fôrmas ela se torna cinza prateada (Figura 13) e após cerca “de 20 a 30 minutos” resfria e se solidifica adquirindo o formato das placas e letras ou de outros moldes de objetos, como cruzes e molduras que servem de suporte para as fotografias dos falecidos.

Figura 13: A transferência da liga metálicas para os moldes.

A quantidade de liga colocada em cada molde “varia de tamanho da placa e espessura”, e é feita “mais no olhometro mesmo”, normalmente quando uma porção escorre para fora das fôrmas. Nesse processo, um material pesado é colocado sobre as fôrmas para contrabalancear a pressão do ar que sai subitamente. Se isso não for feito, as fôrmas podem sair do lugar e as peças ficam deformadas, “aí perde a peça”.

Os cuidados tomados nesta etapa do processo são: uso de um avental de lona, uso de luvas termo resistentes, panos grossos colocados ao redor da cabeça e do rosto e máscara de proteção facial, mas o Alessandro também faz esse processo usando chinelos, devido à sua experiência!

A “areia” é então retirada das fôrmas para revelar os objetos, os quais ainda estão quentes, sendo possível observar a fumaça que desprende. Por isso, não podem ser tocados diretamente com as mãos. O Alessandro os segura usando um alicate. Os objetos mostram algumas imperfeições e rebarbas laterais das peças quando saem dos moldes (Figura 14), as quais são retiradas ou cortadas posteriormente usando equipamentos específicos: “pra cortá é disco de corte e pra tirar as rebarbas é disco de lixa” (Figura 15).

Figura 14: Objetos produzidos nos moldes.

Figura 15:  Discos de corte e de lixa para tirar as rebarbas das placas.

Ele passa parafina nos discos antes de usá-los: a “parafina serve pra não embuchar, não agarrar”, e o acabamento final é feito usando uma lixa movimentada como uma esteira por um motor, “a esteira é lixadeira de fita” (Figura 16). Os primeiros servem para cortar, e o segundo dá acabamento às placas, as quais adquirem, no final, “no mínimo 5 milímetros” de espessura.Figura 16: Lixa de esteira para polir as placas.

Após retiradas as rebarbas e imperfeições, as placas são pintadas com “tinta comum”, tipo tinta esmalte para metais. O Alessandro disse que já testou outras tintas, mas que a “comum” é a que dura mais com o tempo. As cores mais usadas são a preta e a dourada (Figura 17), conforme pedem os clientes. Neste ponto, as placas estão prontas para que sejam fixadas nos túmulos.Figura 17: Placas finalizadas na cor dourada e preta.

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Referências:

DORIGON, A.; KRIOUKOV, V. G.; COSTA, V. J. Modelagem Matemática da Formação de Fuligem em Mecanismos de Reações com Poliacetilenos, VIII ENCIT – Encontro Nacional de Ciências Térmicas, Porto Alegre: CD-ROM edition, 2000.

SILVA, G.M.M.C. Metais e Ligas Metálicas: Uma abordagem experimental no secundário, 2007. Dissertação (Mestrado em Química para o Ensino) – Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Porto, 2007.