De que este sabão é feito?

Ao descrever como o sabão de cinzas é feito Dona Rosa disse: “Primeiro eu ponho a cinza aí no barde. Depois eu, eu soco com um soquete. Aí depois que eu socá e tivé bem socadinho, aí eu ponho a água. Aí depois pingo a dicuada. E depois que eu ponho aqui dentro da panela. Põe a dicuada ali e põe o sebo. O sebo ou a gordura. E vou, e vou mexeno. Aí depois… aí que apura o sabão”.

   Em sua descrição, esta Senhora mencionou o uso de cinza, um “barde”, um soquete, água, a “dicuada”, uma panela e o sebo ou gordura. Ela primeiro coloca as cinzas dentro de um balde, que contém furos na base e é forrado com um pano, e as soca, compacta com um soquete. Depois que estiver “bem socadinho”, bem compactadas, ela coloca água para obter a “dicuada”, a solução que emana por baixo do balde gotejando: “Aí depois pingo a dicuada”. Embora Dona Rosa não tenha mencionado aqui, as mulheres usam água quente nesse processo.

   Mrs. Maria Celeste putting hot water over the ashes

Dona Maria Celeste vertendo água quente sobre as cinzas

   Assim, as cinzas não são usadas diretamente no preparo do sabão de cinzas:

Rosa: Não, se pô a cinza não gera nada não. Virá uma coisa lá, quase nada.

Aparecida: Não gera. Não pode pegá a cinza. Sem cinza. Ele é de cinza e não pode deixá a cinza pegá ele.

Anésia: É de cinza porque ele é feito da dicuada, né?

   Se as cinzas foram usadas como tal “não gera nada não”, não produz sabão, “vira uma coisa lá, quase nada”. As cinzas não podem entrar diretamente na mistura: “Ele é de cinza e não pode deixá a cinza pegá ele”. Chamam-no sabão preto, sabão de bola, pão de sabão, sabão de cinzas, sabão de dicuada. “Ele é de cinza”, mas “porque ele é feito da dicuada”: uma lixívia de cinzas.

   Para obterem-na, Dona Rosa usa um “barde” e água, mas no modo tradicional usam um balaio redondo feito com taquaras de bambu de tamanhos variados (50 a 100 litros, ou maior), o qual é forrado internamente com folhas de bananeira antes de colocarem as cinzas. As folhas funcionam como um filtro que retém a parte insolúvel das cinzas e deixa atravessar a solução. Chamam esse balaio de “barrilero”, que também pode ser forrado com um saco de pano ao invés das folhas de bananeira, tendo o mesmo efeito. Mas, como chegaram a este dispositivo? Como descobriram a sua aplicação na produção desse sabão? Como perceberam a possibilidade de usarem folhas de bananeira para reter a parte insolúvel e desnecessária das cinzas?

barrilheiro

Vista superior do barrilero com as cinzas

   O procedimento de socar as cinzas é, no entanto, reforçado:

Rosa: Tem que pô num barde ou num balainho e socá. E socá com um soquete pra ficá bem socadinho, senão não sai tamém não. Se a gente pô a cinza lá só e pô a água aquilo sai raliiiinho.

Aparecida: Sai. Tem que socá. Tem que enfiá ela bem na vasia pra podê dá fortidão na dicuada. A dicuada quanto mais forte mais rápido fáiz o sabão.

   As cinzas são compactadas no barrilero usando um soquete ou mesmo as mãos “pra ficá bem socadinho”. Caso contrário, se não forem bem compactadas, se não “enfiá ela bem na vasia”, deixar “bem socadinho”, se “pô a cinza lá só e pô a água”, a dicuada “não sai tamém não”: “aquilo sai raliiiinho”, torna-se diluída, pouco concentrada. Nas palavras de Dona Aparecida é “pra podê dá fortidão na dicuada”, para aumentar a concentração da lixívia das cinzas. Isto porque “quanto mais forte”, quanto maior for a concentração da dicuada, “mais rápido fáiz o sabão”, maior será a velocidade da reação de saponificação.

   A experiência dessas mulheres relaciona, assim, a rapidez de preparo do sabão com a “força” da dicuada que, por si, dependerá de elevada compactação das cinzas no barrilero. Ao fazerem isso colocam maior quantidade de cinzas e o resultado é que a água irá atravessá-las mais lentamente. Um grande barrilero pode levar um dia inteiro para produzir a dicuada, ou mesmo mais do que um dia.

   As cinzas usadas no preparo do sabão normalmente provêm de fogões e fornalhas a lenha. A madeira sofre combustão nesses locais e o produto final remanescente é a cinza. Sua composição depende do tipo de madeira utilizada. Comumente, cinzas de plantas contêm compostos inorgânicos provenientes das plantas e pó de carvão produzido na combustão. Dona Maria Celeste mencionou que determinadas plantas produzem cinzas mais adequadas para o preparo do sabão, tais como a madeira da Assa Peixe – Vernonia polyanthes Less, a palha do feijão – Phaseolus vulgaris, e a palha do café – Coffea arábica, mas como ela sabe disso?

   A composição química da lixívia das cinzas do caule da Assa Peixe mostrou a presença de íons potássio, cálcio, ferro(III), alumínio, carbonato, fosfato e silicato e teores de carbonato atingindo 40% da composição total das cinzas na forma de carbonato de potássio, também conhecido por “potassa”. É a substância envolvida nas reações de formação do sabão e pode ser observada nas cinzas na forma de grãos finos de cor branca. Seu teor elevado confirma o saber de Maria Celeste em relação a esta planta, mas como ela adquiriu esse conhecimento?

   Assim, dizem que vão “pingar a dicuada”, extrair o carbonato de potássio das cinzas mediante sua dissolução em água quente. A coloração da dicuada geralmente é parda-avermelhada, o que indica a presença de íons ferro(III) em solução, mas as mulheres não sabem isso, o que elas sabem é que a concentração da dicuada, sua “fortidão”, não tem relação com essa cor nem com sua intensidade. De fato, sendo uma substância de cor branca, a solução aquosa de carbonato de potássio é incolor, mas como compostos de ferro são dissolvidos no processo pela água a solução adquire outra coloração.

   Outro aspecto do saber das mulheres coerente com o conhecimento químico é a proporção relativa entre as quantidades de dicuada e gordura  que é requerida no preparo do sabão. Quando a solução de dicuada estiver muito concentrada em carbonato de potássio, sua quantidade pode ser maior do que a necessária. Por outro lado, se estiver muito diluída, pode ser preciso preparar um segundo barrilero para obter mais dicuada. A que sobrou na primeira situação pode ser utilizada no preparo de outro sabão, mas de forma diferente:

Aparecida: E essa dicuada aqui se a gente põe ela na panela e deixá ela secá vira um sal.

Rosa: Vira sal. É, eu costumo pô num caldeirãozinho.

Aparecida: É. A gente qué aproveitá ela, a gente põe ela pra secá. E aquele sal pode pô num otro sabão. Quando vai fazê, pega aquele sal e passa pro otro sabão.

Rosa: Tem que pô no fogo, né?

Aparecida: Tem que passá ele pra panela e pô ele pra secá. Aí vira um sal.

Rosa: Fica branquinho o sal, né?

Aparecida: Aí o sal pode guardá. Quando fô fazê otro sabão, pode pegá aquele sal e colocá no sabão.

   O reaproveitamento da dicuada após sua secagem ao fogo (“põe ela na panela e deixa secá”) ocorre na forma de “um sal”. Com a ebulição da água da solução resta um “sal”, o resíduo contendo os compostos dissolvidos das cinzas que recristalizaram “na panela” ou “num caldeirãozinho”. Dizem que “vira um sal”, cristaliza um resíduo. O fato que “fica branquinho o sal” e que “pode pegá aquele sal e colocá no sabão” indica a presença do carbonato de potássio no resíduo de evaporação, que também é um sal para os químicos, um sal inorgânico de cor branca, e este sal “pode guardá”, ser estocado e utilizado no preparo de outro sabão.

   Teriam elas descoberto isto acidentalmente? Teriam observado a formação desse “sal” por acaso com a secagem natural da dicuada e depois experimentado aproveitá-lo? Como estabeleceram a relação entre este sal e o seu uso na produção do sabão? A experimentação foi o guia dessas mulheres, ou a curiosidade e o raciocínio lógico aliado à experimentação? Isto não é algo mais comum de ser observado entre os químicos ou cientistas?

   Apesar das possibilidades de reaproveitamento da dicuada na forma de “um sal”, o sabão de cinzas raramente é preparado usando somente o resíduo remanescente de sua secagem. O mais comum é usarem a lixívia de cinzas, como disse Dona Rosa: “Põe a dicuada ali e põe o sebo, o sebo ou a gordura, e vou… E vou mexeno. Aí depois… aí que apura o sabão”.

   Outro procedimento atestado das mulheres é o uso de água quente para obter a dicuada. A água quente favorece a dissolução do carbonato de potássio, uma vez que esta é endotérmica (DEAN, 1987). Ao ser dissolvida pela água, essa substância dissocia-se e o ânion carbonato sofre hidrólise tornando a dicuada alcalina:

dissolução da potassa e hidrólise do carbonato

   O sebo provém da vaca ou do boi e a gordura ou torresmo do porco. São materiais sólidos na temperatura de 25o Celsius. Ambos contêm triglicérides, como a triestearina ou triestearato de glicerila, por exemplo, e pequena quantidade de ácidos graxos livres. A maior parte dos ácidos graxos encontra-se combinada nos triésteres, os quais se decompõem em soluções aquosas alcalinas liberando ácidos do tipo mirístico, palmítico, palmitoleico, margárico, esteárico, oleico e linoleico, que irão então reagir com o carbonato de potássio presente na dicuada e produzir sabões. O sebo de boi normalmente contém maiores quantidades dos ácidos esteárico (octadecanóico), palmítico (hexadecanóico) e oleico (octadec-9-enóico).

triglicerídeo

Fórmula típica de um triglicéride, onde R (cadeia de átomos de carbono) pode variar

Triestearine 

Fórmula estrutural da triestearina

acido-estearico

 Ácido esteárico

acido-oleico
Ácido oleico

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Referência

DEAN, J. A (Ed.). Lange’s Handbook of Chemistry. 13. ed. New York, 1987, Tab. 10-2, p. 10-15.

2 ideias sobre “De que este sabão é feito?

    1. Paulo Pinheiro Autor do post

      depende do filtro/tecido. Tente obtê-la no filtro que você tem à disposicão, vamos ver o que acontece… Não pode deixar passar a cinza, lembre-se…

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