Por que o cimento começou a ser produzido em Barroso?

Por que razão foi instalada uma fábrica de cimento na cidade de Barroso? Várias pessoas da cidade expressaram suas ideias para esta pergunta. Vejamos o que algumas delas disseram:

– “Talvez por ser uma cidade importante”.

– “Devido à grande jazida para exploração em nossos solos, que mesmo depois de grande extração ainda se possui a mesma, que dura 200 anos pelos cálculos e estudos realizados”.

– “Devido à riqueza natural que a cidade dispunha na época e dispõe nos dias atuais. Nosso solo é rico em calcário de ótima qualidade para a fabricação de cimentos e agregados. E também por situar-se próximo à BR 040 e BR 381, facilitando o escoamento da produção para outras regiões”.

– “Por causa do terreno argiloso e da presença do rio que corta a cidade e propicia a instalação de indústrias”.

– “Como já diz o hino da cidade, ela foi escolhida por ser rica em cal”.

– “Pela qualidade do calcário, o hino da cidade já diz: ‘Seu calcário é de grande pureza’”.

– “Pela região que é rica em minério e pelo fato de na época por interesses em progredir a cidade”.

– “Por conta da jazida de calcário e rio das mortes”.

– “Foi escolhida por causa de sua localização estratégica entre polos consumidores do produto e condições de abastecimento da matéria prima mais importante que é o calcário”.

A história da produção de cimento na cidade de Barroso está em parte associada ao Sr. Severino Pereira da Silva, o qual também foi um pioneiro da industrialização brasileira no século XX. Ele nasceu em 6 de maio de 1895 em Itacoaritinga, no sertão nordestino, que se situa na fronteira entre os estados de Pernambuco e Paraíba. Iniciou suas atividades no comércio e indústria ainda adolescente, e foi ao final de 1935 que comprou sua primeira indústria, a fábrica de tecidos Aliança, no bairro de Laranjeiras no Rio de Janeiro. E foi a partir de então que tudo começou.

Sr. Severino Pereira da Silva

Devido à sua capacidade empreendedora, Severino adquiriu prestígio e reconhecimento de pessoas dos ramos industrial, comercial e político. E foi por meio de um desses contatos que soube da existência de uma “alta quantidade de jazida de pedra calcárica” em terras próximas a Barbacena, MG. Em 1952, Tancredo Neves, que era ministro da justiça do segundo governo de Getúlio Vargas, o avisou sobre as minas, trazendo, além da opção de compra, a documentação necessária para a exploração das mesmas.

Jazida de calcário de Barroso

Além de ajudar o amigo, Tancredo visava também um beneficiamento da região de sua cidade natal, a vizinha São João Del Rei, que dista poucos quilômetros (29,4 Km em linha reta e 35,4 Km por rodovia) das jazidas encontradas em Barroso. Severino se interessou pelo negócio, em especial devido à localização estratégica das jazidas, conforme também foi apontado por uma pessoa da comunidade: “Existem dois motivos prováveis. O primeiro é a alta qualidade do calcário e dois é a localização geográfica que a cidade está, ficando próximo ao Rio de Janeiro e São Paulo, facilitando assim o escoamento do cimento”. A cidade é relativamente próxima dos três maiores mercados consumidores de cimento do Brasil: Belo horizonte (140,7 km em linha reta e 195 Km por rodovia), Rio de janeiro (208,5 km em linha reta e 304 Km por rodovia) e São Paulo (379,4 km em linha reta e 503 Km por rodovia).

O Sr. Terra relatou ainda um outro ponto intrigante em relação ao local escolhido: “Interessante que o Paulo Almeida, que foi construtor da fábrica muito tempo e engenheiro de Minas, professor da Universidade de Ouro Preto, dizia que o Rio das Mortes é um divisor de águas na questão da qualidade do calcário,  as jazidas que estão à esquerda do Rio das Mortes são de primeira qualidade, as que estão à direita é calcário, digamos assim, de refugo” .

Porém, havia um pequeno empecilho para a exploração do mineral de Barroso: José Lopes, o dono dos terrenos, não queria ver suas terras transformadas em minas de calcário, se negando a vendê-las a “quaisquer industriais de cimento que fossem” (FONTES, 2013). Para vencer a resistência do Sr. José Lopes, Severino elaborou um plano nem um pouco ético. Solicitou a seu amigo Gervásio Seabra que fizesse a negociação em seu lugar. Este se apresentaria como um mero comerciante que desejava terminar seus dias criando gado em Minas Gerais. José Lopes foi assim convencido e vendeu suas terras a preços módicos. Pouco tempo depois, após descobrir a quem tinha realmente vendido sua fazenda, quis desfazer o negócio, mas já era tarde. Não é lamentável que a venda do terreno tenha ocorrido desse modo?

Feito o negócio, havia outro problema: o transporte dos enormes pedregulhos através das montanhas íngremes. A princípio, a indústria seria instalada em Antônio Carlos, município vizinho, devido à sua rede ferroviária, uma vez que em Barroso não havia rodovia adequada. Foi quando em 1953 foram feitos planos para construção de um cabo aéreo, porém, embora contasse com a ajuda de firmas suíças e alemãs, o custo era muito alto e o projeto foi deixado de lado, pois era mais barato arrendar os terrenos vizinhos para construir a fábrica no local e, além disso, impedir a concorrência de outras fábricas na região. E assim, por questões econômicas e práticas, ficou decidido que a fábrica seria construída em Barroso. O Sr. Paulo Terra mencionou:

“Para fabricar uma tonelada de cimento você gasta 1,8 toneladas de calcário. Além de outros ingredientes que entram, tem argila, tem areia, mas o principal insumo, a principal matéria-prima é o calcário. Para a cidade de Antônio Carlos precisaria transportar um volume enorme para fazer uma tonelada de cimento, então percebemos que era muito mais econômico colocar a fábrica ao lado da ‘ferroviazinha’ pequena, estreita, mas iria transportar apenas 10 quilômetros por dia”, já que a instalação em Barroso ficou próximo à jazida, ao contrário de Antônio Carlos.

Estação de trem Barroso, atualmente extinta (fotografia feita em 1981, autor desconhecido)

Assim, o primeiro passo estava dado, porém havia outro empecilho: a ausência de energia elétrica na região, o qual teve que ser resolvido politicamente. O Dr. Lucas Lopes era o ministro da Fazenda de Getúlio Vargas e estava fundando a CEMIG. Assim, acordou a criação de uma usina na região para atender à fábrica. O contrato foi efetuado com empréstimos externos e como garantia dos acordos financiados incluiu-se a construção da “Barroso” (nome dado à fábrica na época), já que a empresa seria a maior consumidora de energia na região. E foi então que as duas empresas foram construídas: a usina de energia elétrica e a fábrica de cimento.

O processo de construção e montagem da Barroso contou com a chefia do genro de Severino Pereira, o Sr. Paulo Freire, o qual era engenheiro, e a colaboração de outro genro, o Sr. Alessandro Cazzani, o qual foi gerente da ‘Paraíso’ (indústria cimenteira filiada) e havia feito um estágio na Dinamarca. Contou também com a assessoria e equipamentos da FLSMIDTH dinamarquesa. Após sua construção nos anos de 1953 e 1954, a fábrica foi inaugurada em 1955 com uma grande festa. Neste tempo, era a maior fábrica de cimento do Brasil, sendo superada apenas pela Votorantim de São Paulo nos anos 1960 e 1970.

Severino edificou casas para gerentes e uma vila operária. “E assim foi se ‘criando’ uma verdadeira cidade em volta da fábrica”, disse Terra. No dia 12 de dezembro de 1953, a localidade transformou-se em município através da Lei 1.259, emancipando-se de Dores de Campos, o que trouxe maior movimentação para uma região abandonada e inóspita desde que se dizimou o ouro nas minas de Tiradentes e São João Del Rei. O município passou a ter então, um perfil majoritariamente industrial.

Uma pessoa da comunidade disse o seguinte: “A fábrica ter se instalado em nossa cidade foi de importância primordial em nossa economia local. Por mais que hoje a mesma não emprega ou movimenta-se economicamente como nos anos anteriores (por uma questão de sobrevivência e sustentabilidade de negócio), a fábrica foi a principal motivadora dos mercados locais, ajudando com que fosse criada uma corrente comercial produtiva, que gera renda aos habitantes dependentes direta ou indiretamente do negócio do cimento”.

Fabrica de Cimento de Barroso em 2001

Referência:

FONTES, L. O. A passagem do cometa. 1. ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013.

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