Texto 2 e atividade: como significamos ‘visão de mundo’?

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O construtivismo contextual proposto pelo pesquisador americano William Cobern é uma forma de construtivismo social-relativista e sua ênfase consiste em analisar o papel da cultura no desenvolvimento e na validação das crenças individuais. Nesta perspectiva, os educadores precisam aprender a identificar e compreender as crenças culturais dos alunos e perceber como são sustentadas pelos meios onde eles vivem. No caso do ensino de ciências isto se torna relevante porque se a ciência não encontrar um nicho no meio cognitivo e sociocultural dos alunos ela dificilmente será apreendida ou fará sentido para eles. Por ser proveniente de um contexto sociocultural específico, a ciência expressa um modo de conhecer que não é o único e as suas relações com os contextos de vida-mundo dos alunos podem ou não ser compatíveis com as suas ‘visões de mundo’.

O conceito de ‘visão de mundo’ é central na proposta do construtivismo contextual, mas falar em ‘visão de mundo’ não é pouco comum em trabalhos acadêmicos, especialmente da área de educação. O que falta, segundo Cobern, é uma definição mais clara do termo, que, conforme já mencionado, parece ser mais fácil para os pesquisadores não-Ocidentais em comparação com os Ocidentais (COBERN, 1991, p. 33). Entre as definições normalmente atribuídas à visão de mundo, Cobern mencionou as seguintes (Ibid., p. 33):

a visão do mundo de uma pessoa

nosso entendimento de homem e de natureza

nosso tipo de pensamento

como entendemos causa e efeito

A indefinição do conceito de ‘visão de mundo’ e o seu uso por muitos podem ser justificados considerando que a expressão é um tanto quanto óbvia em suas próprias palavras. O termo ‘visão’, por exemplo, remete a ‘ver, conhecer, interpretar’, e ‘mundo’ a qualquer ambiente do ‘Planeta Terra’. ‘Visão de mundo’ seria, portanto, o modo de ver, conhecer e interpretar o mundo. Mas o termo ‘mundo’ pode variar de pessoa para pessoa, considerando que os seres humanos crescem e se desenvolvem em locais distintos e muitas pessoas crescem e se desenvolvem percorrendo vários lugares em suas vidas. Pode, assim, ter significados que variam de pessoa para pessoa, em se tratando dos mais diversos ambientes e interações. Podemos considerar também que existem ‘mundos’ menores dentre de um ‘mundo’ maior, como os ‘mundos’ de família, amigos, escola, ciência e religião de um aluno de escola pública de São João Del Rei ou de uma ‘tribo’, ‘clã’, ‘tradição’ e ‘comunidade’ indígena da Amazônia, por exemplo. Cada um desses ‘mundos’ particulares têm os seus próprios valores, crenças, normas, expectativas e ações convencionais.

Na literatura em antropologia e filosofia, Jones mencionou existirem treze sinônimos diferentes para visão de mundo e comentou:

Os críticos suspeitam que um conceito tão distintamente nomeado seja em si mesmo um tanto quanto vago e essa suspeita explica indubitavelmente porque alguns estudantes da cultura preferem ignorar a noção de visão de mundo, de modo geral (JONES, 1972, apud COBERN, 1991, p. 33, tradução do autor).

Esta expressão também já foi considerada como sinônimo de religião e ideologia, incluindo a ideologia Secular (Ibid., 1991, p. 33). Em relação à religião e à filosofia:

[…] são quase sempre vistas como dando suporte às visões de mundo. Como exemplo, as pessoas falam sobre uma visão de mundo Cristã ou Islâmica, uma visão de mundo construtivista ou realista. De fato, a religião pode ser uma ferramenta poderosa usada por indivíduos reflexivos para articular informações religiosas em uma visão de mundo. Além disso, a religião é uma força formativa particularmente poderosa na mente de uma criança em crescimento, influenciando em muito os contornos do desenvolvimento de sua visão de mundo. Todavia, muitos fatores ambientais influenciam as crianças e os adultos. Embora a religião influencie uma visão de mundo, ela também é, por si mesma, influenciada pela visão de mundo (COBERN, 2000, p. 7, 8).

Na literatura relacionada à educação multicultural em ciências, também é comum encontrarmos referências às ‘visões de mundo’ (ADAMS,2012; AIKENHEAD, 1996; ALLEN, 1995; GEORGE, 1999). Esta e as considerações feitas acima, sugerem considerar a significação de ‘visão de mundo’ como importante para a formação de professores e pesquisadores dos estudos culturais e da cultura. O conceito adotado por Cobern se baseia no quadro de referência teórico do antropólogo Michael Kearney, mas ao invés de apresentarmos este quadro para análise e discussão, vamos inicialmente perceber o que você entende por ‘visão de mundo’ seguindo uma abordagem construtivista, já que o conceito é fundamental na perspectiva do construtivismo contextual. Posteriormente, iremos realizar a leitura de outros textos e desenvolver novas atividades. Antes de prosseguirmos, por favor, responda às questões propostas no formulário abaixo e envie suas respostas. Posteriormente iremos fazer uma discussão coletiva e virão outros textos e atividades.

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PROSSIGA PARA: Texto 3 – Visões de mundo de estudantes de ensino médio: o contexto e a metodologia de pesquisa

Referências

ADAMS, J. D. Community Science: capitalizing on local ways of enacting science in science education. In: Fraser, B. J.; Tobin, K. G.; McRobbie, C. J. (Eds.) Second International Handbook of Science Education. New York: Springer Dordrecht Heidelberg, 2012. p. 1163-1177.

AIKENHEAD, G. Science Education: border crossing into the subculture of science. Studies in Science Education, n. 27, p. 1-52, 1996.

ALLEN, N. J. (1995) “Voices from the Bridge” – Kickappo Indian Students and Science Education: a worldview comparison. In: ANNUAL MEETING OF THE NATIONAL ASSOCIATION FOR RESEARCH IN SCIENCE TEACHING, 1995, San Francisco (CA/EUA). Texto…

COBERN, W.W. World View Theory and Science Education Research (Monograph 3) Manhattan, KS: National Association for Research in Science Teaching, 1991.

COBERN, W. W. Everyday Thoughts about Nature: a worldview investigation of important concepts students use to make sense of Nature with specific attention to science. Kalamazoo: Western Michigan University, 2000 (Livro em formato eletrônico fornecido pelo autor).

GEORGE, J. World View Analysis of Knowledge in a Rural Village: implications for science education. Science Education, v. 83, p. 77-95, 1999.

SNIVELY, G.; CORSIGLIA, J. Discovering indigenous Science: Implications for Science Education. Science Education, v. 85, n. 6, p. 6-34, 2001.