Texto 4 e atividade: as visões de mundo dos estudantes Messias, Rosemeire e Wesley

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Por favor, leia os textos abaixo e responda às questões ao final.

I – Messias

Messias se revelou como alguém que fala pouco e demonstrou não saber bem o significado das palavras envolvidas na fase 2, tais como: recuperável, matéria, complexa, caótica, compreensível, diversa, ordenada, condenada, material e outras. Após observar as fotografias iniciais na tela do computador, ele percebeu facilmente a relação das mesmas com a Natureza. Ao ser questionado se saberia defini-la, Messias riu e colocou a mão na cabeça, como na maior parte das vezes em que foi solicitado a esclarecer alguma dúvida:

Messias: Que seria a Natureza? [Com a mão direita em forma de concha sobre a testa]. A água, o céu, as árvores, as aves… Tudo isso é a Natureza [Rindo].

Enquanto foi organizando as palavras de modo a completar as frases “A Natureza é _________” e a “Natureza não é ___________”, Messias perguntou sobre o significado das palavras que não sabia. Vejamos o trecho da entrevista abaixo no qual Messias quis entender melhor o significado da palavra “espiritual”, que me pareceu incomodá-lo:

Messias: [Pega o cartão com a palavra, olha para a mesa, faz uma pausa, pensa e pergunta] Como assim espiritual?

Entrevistador (E): Aí você que pode dá a tua interpretação, porque pra cada um quer dizer uma coisa, né? Que quê cê acha que é? Algo que é espiritual pra você significa o quê?

Messias: Ah, pode trazê… algo espiritual… assim… A natureza assim pode trazê algo bom.

E: Espiritual é sinônimo de bom, então, uma coisa boa [Messias concorda com a cabeça e coloca o cartão com a palavra na coluna “A Natureza é _________”]. Então tudo bem. Qual seria o outro significado de espiritual pra você?

Messias: Outro significado? Acho que não tem outro não [Movimentando a cabeça negativamente a cabeça].

E: Não tem outro… Só esse mesmo…

O processo de organização das palavras por Messias foi rápido, levando cerca de quinze minutos. Quando questionado se não queria agrupar as palavras para explicá-las, Messias fez somente uma breve revisão sobre a mesa sem realizar qualquer alteração significativa na disposição dos cartões, arrumando-os somente e mantendo-os na mesma posição. Pedi então que ele escolhesse uma das palavras para começar a explicar e ele escolheu a palavra “Perigosa”:

E: Vamo lá então… Por que quê a Natureza é perigosa?

Messias: Uai, porque alguns fenômenos que acontecem ca Natureza pode causá destruição, igual naquela foto lá. Aí é algo perigoso…

A próxima palavra escolhida por ele foi “Divina”:

Messias: Acho que é algo divino, porque é uma coisa… sei lá, muito certa. É! Só pode vir de Deus mesmo… São coisas maravilhosas na Natureza… É isso.

E: Divina então é o que vem de Deus… Coisas maravilhosas que vem de Deus. Tudo que vem de Deus é maravilhoso?

[Messias acenou positivamente com a cabeça].

Prosseguindo em sua explicação da organização das palavras, Messias chegou até a palavra “Inexplicável” e percebeu que a havia colocado no lugar errado. A Natureza para ele não era inexplicável (ele mesmo havia esboçado uma definição para a Natureza no início da entrevista), e, então, deslocou o cartão com essa palavra para a coluna “A Natureza não é ________”. Ao procurar explicar as palavras “Assustadora” e “Perigosa” perguntei a ele como a Natureza poderia ter esses atributos e ao mesmo tempo ser “Divina”. Messias disse que não sabia explicar. A mesma indagação ocorreu quando ele chegou até a frase “Tudo de Bom” em sua explanação e concluiu que “tem partes boas e partes ruins”. Associada ao fato de a Natureza para ele não ser inexplicável, vejamos o que ele disse sobre o fato de considerar a Natureza compreensível.

Messias: Compreensível. A Natureza é compreensível [Acenando positivamente com a cabeça].

E: Como é possível compreender a Natureza?

Messias: Como é possível… [Faz uma pausa e movimenta as sobrancelhas] … Ah, não sei não…

E: Não! [Risos de ambos] Não, mas cê tá falando que ela é compreensível. Dá uma ideia de como ocê acha que é possível compreender a Natureza.

Messias: Compreender… Compreender algo que acontece na Natureza… Vamo vê aqui…

E: Como que é possível compreender o que acontece na Natureza? Parece que é óbvio, né? Muito assim na cara, mas eu tenho que tentar entender o que quê ocê acha que tá por trás. Compreensível… A Natureza é compreensível…

Messias: Vou deixar essa aqui, depois nóis volta…

E: Tá. Tá legal.

Em outro momento, na etapa de organização das frases, ele expressou a mesma dificuldade em explicar, relativo à frase: “A Natureza é possível de conhecer”. No entanto, dessa vez, procurei “tirar leite de pedras”:

Messias: Não, a Natureza é possível de conhecer, uai. Têm muitas coisas na Natureza que a gente pode vê, que a gente conhece, as árvores… As árvores…

E: Mas como que é esse conhecer aí. É vê? É vê?

Messias: Vê.

E: É uma coisa que você vê…

Messias: Não. Pode também estudá mais sobre… sobre isso, né?

E: Estudar mais? Como assim?

Messias: Ah, sobre as árvores… Sei lá. Não só de conhecê, só de vê…

E: Não só de vê…

Messias: É.

E: Mas assim, como é que ocê poderia estudá mais sobre as árvores, por exemplo.

Messias: [Pondo a mão na testa] Tem alguém que estuda muito sobre esses negócios, não tem? Como que é? Arqueólogo? É isso?

E: Sobre plantas, sobre árvores?

Messias: É.

E: Que seja vai…

Messias: Ah, um negócio assim… assim…

E: Então, mas aí o que quê ele faz, no caso o “arqueólogo”?

Messias: Uai. Estuda sobre plantas. Sobre as coisas assim…

E: Mas quando cê fala estudá cê tá querendo…

Messias: Não, sabê mais sobre… sobre o que quê pode fazê com as plantas. Muitos remédios também são extraídos de plantas, né?

E: E esse saber envolve mais o quê?

Messias: Assim cê tá me apertando hein… [Risos].

E: É, mas é pra sabê, entendê o que quê cê tá falando… Esse sabê mais, como que é isso? Que quê ele faz exatamente? Como que é esse saber mais? Como que ele consegue saber mais sobre as árvores, sobre as plantas?

Messias: Ah, eu não sei não [Acenando negativamente com a cabeça].

E: Não? Não faz ideia?

Messias: Ãn Ãn.

E: Como ocê acha que é?

Messias: [Com as mãos sobre a testa] Nem tenho ideia.

E: Não! Vamo pegá, por exemplo, uma pessoa que quer conhecer mais sobre o mar, por exemplo. Como que ocê acha? Que quê ocê acha que ela faz…  Pra ela conhecer mais? Pra ir além desse conhecer que ocê falou, que é vê, né?Ah, eu vou ali e vejo então eu conheço. Por que ocê falô que tem um conhecer que vai um pouco além: estudá, né?

Messias: Hum Hum.

E: Eu tô querendo entendê o que quê ocê quer dizer com estudá.

Messias: Não, não. O negócio do mar. O cara vai lá pro mar navegá e pode também mergulhá. Sei lá… Com os aparelho lá pra sabê mais sobre a vida debaixo d’água, essas coisas… Sobre os peixes e diversos tipos de vida no mar.

E: Ele vai com os aparelhos então. Esses aparelhos ajudam ele a sabê mais alguma coisa sobre… sobre o mar. Só os aparelhos ou usa outras coisas? Que mais, porque dá a impressão que é só isso. Vou espremendo, vou espremendo, vou espremendo…

Messias: É [Risos]. Os aparelhos…

E: Os aparelhos, ocê falou… Ele vai lá e mergulha….

Messias: Não, os aparelhos pra ele mergulhá senão não vai conseguir respirá, mas ele pode… Ah, é complicado…

E: Ele quer saber mais sobre o mar, né? Tem um outro meio além dele ir lá pro mar e mergulhá com os aparelhos, tem alguma outra forma dele saber mais sobre o mar?

Messias: Ah, livros…

Nos dois trechos acima, Messias mostrou dificuldades em explicar os significados de “compreender” e “conhecer” a Natureza, revelando dificuldades de expressar explicações. Messias não tinha ideia sobre como é possível obter conhecimentos sobre a Natureza. Num primeiro momento ele associou o verbo “conhecer” ao verbo “ver”. Nesses termos, o conhecimento decorreria do contato visual com a Natureza, de uma percepção sensorial concreta operando sobre a mesma. Messias associou o trabalho de um biólogo ou de um botânico (aquele que estuda as árvores, as plantas) a um “arqueólogo” e mencionou a obtenção de “muitos remédios” através das plantas. Ao ser questionado com insistência, reagiu dizendo que eu o estava “apertando”, até confessar que não sabia responder como é possível obter conhecimentos sobre a Natureza: “Nem tenho ideia”, disse ele. Ao me referir ao caso de uma pessoa que quer conhecer ou estudar o mar, ele respondeu mencionando a necessidade do uso de aparelhos para o mergulho, “senão não vai conseguí respirá”, e logo depois voltou a considerar “complicado” explicar o que estávamos discutindo. Todavia, após muito “espremer” esse aluno, ele acabou mencionando o uso de “livros” como forma de se conhecer a Natureza.

As duas últimas palavras deixadas por Messias para explicação dentro do grupo “A Natureza é _______” foram “Misteriosa” e “Compreensível”. Ao explorar a primeira, ele disse que não tinha nenhum interesse ou curiosidade pelos mistérios da Natureza. Em relação à segunda, ele preferiu deixá-la de lado, não conseguindo reunir argumentos para explicá-la. No grupo de palavras pertencente ao conjunto “A Natureza não é ________”, Messias colocou também a palavra “Condenada”. Ele disse ter assistido uma notícia em um programa jornalístico na televisão a respeito de um problema ambiental e que apreciava assistir essas coisas na TV, mas que não gostava quanto o assunto tinha natureza política. No final de sua difícil e confusa exploração das palavras, a questão relativa a quem pode descobrir coisas sobre a Natureza foi retomada:

E: Então eu tinha te perguntado assim aquele lance da árvore lá, cê falou que o arqueólogo, né? Então assim, além do arqueólogo pode alguém mais saber coisas sobre a Natureza? Além de você, de eu, assim, alguém especial, por exemplo? Porque ocê falô a gente vai lá e vê, é um tipo de conhecimento, né? Cê teria assim, além do arqueólogo, cê lembra de algum outro sujeito, algum outro tipo de profissão que estuda a Natureza, que quer saber coisas sobre a Natureza.

Messias: Ah, não lembro não.

E: Não.

Messias: Não. Quem conhece bastante também é o pessoal indígena.

E: Os indígenas.

Messias: É.

E: Como que é esse conhecimento deles, como ocê acha que é?

Messias: Porque eles vivem… eles vivem bem lá dentro mesmo da Natureza, sabe. Sabem tudo sobre plantas, sobre as que são venenosas, que pode curá, essas coisas…

E: Mas o conhecimento deles cê acha que é parecido com o conhecimento do arqueólogo, por exemplo, ou é diferente? O modo que o arqueólogo vai pra saber mais sobre as árvores é igual ao modo como o índio vai saber mais sobre as árvores?

Messias: Acho que o índio mais acho que é na prática.

E: O índio é mais na prática…

Messias: Na prática.

E: E o arqueólogo mais…

Messias: Na teoria.

E: Na teoria. Quem sabe mais afinal das contas?

Messias: Acho que é o índio porque ele pratica né?

E: Ok. Por que eles, os índios, o arqueólogo, querem saber coisas sobre a Natureza? Por que?

Messias: Não sei [Acenando negativamente com a cabeça].

E: Não faz ideia?

Messias: Ãn Ãn.

E: Por que eles vão lá e querem saber mais que planta que é venenosa, que planta que não é…

Messias: Não, os índios porque eles têm que sabê, né? Porque se acontece alguma coisa lá, sei lá, se alguma planta tem veneno eles podem até morrê, né? Agora o arqueólogo não sei não… [Com ar de deboche e acenando negativamente com a cabeça].

E: Não faz ideia porque ele quer ir lá saber mais sobre as coisas… Não tem um propósito? O índio precisa…

Messias: Conhecimento.

E: Conhecimento.

Messias: Pra conhecer mais.

E: Só pra conhecer, do ponto de vista teórico…

Messias: É.

E: E o índio não, porque ele precisa, ele vive lá, né? Então cê acha que o índio consegue saber mais, porque ele precisa aplicá… [Messias acena positivamente com a cabeça] E esses caras que vão lá estudá e não aplicam, esses caras que ficam estudando só a teoria, que cê acha desses caras?

Messias: [Ri] Não sei!

E: Por que ir lá prá ficá sabendo só teoria, cê acha que isso é válido?

Messias: Não, tem gente que tem prazer né? De estudá, estudá aí… Estudá o dia inteiro… Sei lá, talvez o cara gosta de estudá e vai estudá, fazê o que gosta…

E: Mas é válido o que ele fáiz?

Messias: Não, pra eles é válido, uai. É uma coisa que eles gostam de fazê.

E: E pra você?

Messias: Se é válido ou não?

E: É.

Messias: Não, pra mim não, porque eu não vou tá envolvido nisso…

No trecho acima, ao retomar a questão de como é possível a um “arqueólogo” conhecer mais sobre a Natureza e se existe algum outro sujeito ou tipo de profissão que estuda a Natureza, Messias citou o “pessoal indígena”. O conhecimento indígena, para ele, foi associado a um conhecimento prático, ao passo que o conhecimento de um arqueólogo foi visto como teórico. “Os índios têm que sabê…”, disse ele, “agora o arqueólogo não sei não”. Para Messias o índio precisa adquirir “conhecimento” e a falta desse implica em uma questão de sobrevivência. O conhecimento de um arqueólogo, por outro lado, foi associado a algo que “tem gente que tem prazer (…) De estuda, estudá aí… Estudá o dia inteiro… Sei lá, talvez o cara gosta de estudá e vai estudá, fazê o que gosta…”. A validade do conhecimento de um “arqueólogo”, segundo ele, foi associada ao gosto pelo estudo. O mesmo, no entanto, não pode ser dito em relação a ele mesmo, pois em sua ótica, esse conhecimento não tem validade “porque eu não vô tá envolvido nisso”.

Após este trecho, contrariando a recomendação de Cobern, optei por introduzir a palavra “ciência” na discussão. Messias me pareceu ser bastante alienado em relação ao conhecimento científico e eu decidi aprofundar isso:

E: Então e o que é que a ciência tem a ver com tudo isso aí? A ciência [Messias ri como se tivesse achado a pergunta incabível]. Não faz ideia?

Messias: Ah, não sei não.

E: Cê não falô sobre a ciência, né? Cê falô do arqueólogo e tal, né? Cê acha que a ciência ajuda a conhecer a Natureza? [Messias se mostra desconfortável].

Messias: Ah, não sei Paulo.

E: Não sabe? Não faz ideia?

Messias: Ãn Ãn.

E: Não? Vou fazer mais perguntas. Cê não acha que a ciência ajuda a prever as coisas sobre a Natureza? Cê falô que a Natureza é imprevisível, né? Cê não acha que a ciência pode ajudá a prever a Natureza? Prever os eventos da Natureza?

Messias: Não, pode…

E: Pode?

Messias: Pode, mas já é raro também, né?

E: Já é raro também…

Messias: Não é cem por cento de acerto.

E: Não é cem por cento confiável… Cê acha que a Ciência não é cem por cento confiável?

Messias: Não, elas acertam, acertam também, mas não sempre…

E: Não sempre… Então a ciência consegue ajudá a prevê, mas não tudo. É isso o que ocê tá querendo dizê pra mim. Cê acha que a ciência é uma forma de conhecer a Natureza, ou pode ser?

Messias: Pode sê…

E: Pode sê. Cê falô assim que a Natureza vem de Deus, né? Mas a ciência não provou ainda a existência de Deus. Que cê acha disso?

Messias: A Ciência não provou? [Surpreso].

E: Não. A Ciência já provou que Deus existe?

Messias: Eu não sei.

E: Cê não sabe?

Messias: Eu não sei não [Rindo].

E: Então eu tô falano então pro cê. Não tem prova que Deus existe. A ciência tem uma outra explicação pra origem da vida, da Natureza. Já ouviu falar naquela teoria do Big-Bang?

Messias: Hum Hum.

E: Já ouviu falar?

Messias: Ah, eu acho isso aí errado.

E: Cê acha errado?Por que?

Messias: Uai, o Big-Bang é aquele negócio da grande explosão. Que criou as coisas através dessa grande explosão. Uai, até hoje que eu sei explosão acho que só destrói as coisas. Igual a explosão lá do World Trade Center. Os aviões lá que bateram, né? Ocorreu a explosão e os prédios caíram. Se fosse explosão criá as coisas era pra criá outro World Trade Center, lá em cima do outro. Acho que não tem muito a vê esse negócio não. Explosão até hoje tem a vê com destruição.

E: Então, mas cê não acha que pode ser uma explosão assim que depois de ter acontecido aí as coisas foram se formando devagar…

Messias: Ah! Impossível!

Continuando essa discussão, Messias manifestou acreditar mais no conceito bíblico da criação do mundo, dizendo que “Deus é um Deus todo poderoso, ele tem poder. Na Bíblia fala, fala tudo em gênesis. Como Deus criou o mundo e tal”. Depois ele disse não ter muita “convivência com a ciência não”, mas “mais convivência com Deus”:

Não tenho muito interesse pela ciência não. Eu tenho interesse mais pelas coisas espirituais… Eu gosto e me sinto muito bem… Não, mas é legal também você saber mais sobre as coisas. Não tô dizendo que isso é fútil. É legal. Mas entre eu ler a Bíblia e ler esses outros livros eu prefiro ler a Bíblia.

Em sua fala acima, Messias revelou que a sua fonte de informações mais confiável é a Bíblia e é curioso que ele mostrou também um significado distinto para a palavra “espiritual”, contrariando o que ele disse no início da entrevista. Essa preferência por assuntos espirituais ou religiosos foi confirmada na última fase da entrevista, quando ao ordenar as frases mais relevantes para si mesmo ele escolheu como a mais importante aquela que diz: EU VEJO O TRABALHO DE DEUS NA NATUREZA.

II – Rosemeire

Rosemeire percebeu fácil que as fotografias na tela do computador se referiam ao tema Natureza. Quando questionada sobre a sua definição de Natureza, ela respondeu:

Rosemeire: A Natureza é assim, é tudo, né? As pessoas, os animais, a vegetação… Essas coisas assim… Acho que é.

Entrevistador (E): Tudo, mas não tem nada que fica de fora?

Rosemeire: Não. Assim… O que eu acho que fica de, assim, de fora da Natureza são as coisas que o homem construiu, né? As coisas que foram desenvolvidas pelo homem, né? Que é a tecnologia, casa, essas coisas assim… Acho que o resto tudo é natureza.

Rosemeire se mostrou muito falante no decorrer de todas as fases da entrevista, usando muito as mãos para se explicar. Ela também manifestou algumas dúvidas em relação ao significado de algumas palavras, mas bem menos que Messias. O processo de organização das palavras em dois grupos na fase 2 foi bem mais rápido, levando ao redor de 7 minutos. Um traço característico das falas de Rosemeire foi a sua menção constante ao homem como parte integrante da Natureza.

Na fase 2, ela mostrou domínio das palavras sobre a mesa, chegando a organizá-las em grupos semelhantes durante a sua fala. A primeira palavra escolhida para iniciar os seus comentários foi “divina”, à qual ela foi associando outras palavras de modo muito fluído, espontâneo e objetivo:

Rosemeire: Vou começar por “divina”. Acho que a natureza é “divina” porque é uma coisa criada por Deus, né?! Que Deus fez pro homem. Por isso é uma coisa divina. E ela também é “vida” porque ela é fonte de vida, né?! Ela traz “paz” pra pessoa que sabe, né, aproveitar da natureza tudo aquilo que tem. Por exemplo, cê sabe sair daquele stress, né, da vida… que é tão corrida assim… Cê ir pra um campo, pra um lugar assim, pra uma cachoeira assim, né?! Relaxá. É “tudo de bom”, também, porque é tudo de bom, né?! A Natureza…

Num certo momento de sua fala perguntei sobre sua religião. Ela se revelou como sendo uma católica que frequenta o centro espírita com a mãe, mencionada como a sua maior influência religiosa. Ela disse não concordar muito com a igreja católica, especificamente por sua crença em reencarnação. Rosemeire explicou a sua crença com muitos detalhes, dizendo ao final que a mesma fazia mais sentido para ela. Ao ser confrontada com a ausência de comprovação científica sobre a reencarnação, Rosemeire disse que não precisava de “uma comprovação assim pra acreditar” e que a sua crença estava baseada em seu “coração”.

Ao explicar porque a Natureza é “misteriosa”, Rosemeire não deixou de mencionar os mistérios relativos à compreensão da natureza humana, que ela demonstrou apreciar bastante. Ao se referir a uma floresta, a uma mata fechada, ela associou o “mistério” a algo que lhe causa a impressão de que “há alguma coisa a mais para ser revelada” em comparação com aquilo que é percebido somente através do olhar. O trecho mostrado a seguir evidencia a sua visão sobre conhecer os mistérios da vida e da natureza, na direção de abrir “a mente e o coração”:

E: Quando cê fala assim “ser revelado” como que é isso? Como que uma coisa se revela assim?

Rosemeire: Ah, não sei… Depende. Acho que muitas coisas são reveladas pra serem descobertas. Pra gente descobrí sabe… Uma coisa que é melhor pra gente, mas que a gente não tá conseguindo vê ou não tá conseguindo entendê.

E: E como que descobre alguma coisa?

Rosemeire: Acho que… acho que a gente tem que abrí assim, sabe, a mente. Desocupá dessas coisas assim de… de vida, de cidade, de stress, de correria, de dinheiro. Abrí a nossa mente, nosso coração, assim: ficá livre, sabe, em paz… Acho que é assim que a gente descobre muita coisa…

Ao comentar sobre a natureza ser “inexplicável”, Rosemeire fez uma menção espontânea à ciência e a entrevista acabou seguindo o seguinte rumo:

Rosemeire: Inexplicável porque por mais que a gente tente a gente não consegue entendê, né? Explicá…

E: Mas totalmente inexplicável?

Rosemeire: Não. Não é assim totalmente inexplicável. Assim… Porque sempre tem alguma coisa que a gente não consegue entendê, né? Sempre tem uma coisa que a gente supõe, que a gente, que a ciência mesmo faz pesquisas e é uma coisa que não é totalmente comprovado, do homem, da natureza, assim, tudo…

E: Mas cê acha que a ciência algum dia vai conseguir explicar todas as coisas sobre a natureza?

Rosemeire: Não.

E: Nunca?

Rosemeire: Eu acredito que não.

E: Não? Por quê?

Rosemeire: Ah, não sei. Tem coisas assim que é só… assim… Eu falo muito de Deus porque eu fui criada muito assim, sabe, mas eu acho que tem coisas assim que é só Deus, assim, que só quando a gente tivé lá com ele e em paz, assim… com Deus, que a gente vai podê entendê tudo mesmo! Que tem muita coisa que a ciência não vai conseguí explicá…

E: Mas aquilo que ela consegue explicá, cê acredita? Ou cê acha que mesmo assim ainda deixa dúvida?

Rosemeire: Assim, tem coisas que eu acredito. Agora tem coisas que eu acho assim… Eu fico muito em dúvida, assim, entre ciência e religião sim! Por exemplo, a questão do homem, assim… do… do surgimento do… do planeta, assim, né? Pela religião é de uma forma, pela ciência é outra, assim, pela evolução do homem também… Eu acho assim… eu… eu assim… As duas teorias pra mim, assim sabe, têm lógica, mas é difícil eu sabê qual que é assim aquela que… que é a verdadeira… aquela que é assim… A gente vai assim…

E: E pra qual lado cê tende aí nessa situação, nessa teoria da origem, da evolução? Cê vai mais pro lado religioso ou mais pro lado da Ciência? 

Rosemeire: Mais pelo religioso.

E: Mais pelo religioso… Te… te serve melhor? Explica melhor?

Rosemeire: É. Eu acho que sim.

E: Cê consegue explicá por quê?

Rosemeire: Ah, não, assim… Porque eu sei essa questão assim da ciência de… Por exemplo, que fala que o… o… a Terra surgiu de uma explosão, não sei. Eu Acho difícil. Da onde surgiu o universo? Um buraco que surgiu do nada assim? Pra mim, porque a ciência ela explica mas ela não explica de uma origem… de um começo total. Não explica, por exemplo, como que surgiu o universo, sabe, essas coisas assim. Agora se eu fô, se a gente fô fica pensando nisso eu vô ficá é lôca, aí a gente assim, se a gente fô vê pelo lado de… de religião assim, que Deus criou o universo, criou os planetas, criou tudo, acho que é mais fácil pra mim de entendê… Eu não desconsidero totalmente a explicação científica, mas só que a religiosa é mais fácil pra mim…  de entendê…

Rosemeire reforçou o que disse acima numa etapa posterior de sua entrevista, dizendo preferir “procurar as respostas mais em Deus do que na ciência”. Essa junção de fatores emocionais e religiosos foram retomados novamente quando ela explorou o fato da natureza ser “possível de conhecer”. O conhecimento, para ela, precisa ser sentido e ter uma natureza espiritual, embora o conhecimento científico seja reconhecidamente importante:

Rosemeire: Possível de conhecer foi aquela questão que eu falei pra você, de você tá mesmo em contato com a natureza. Você se libertá de tudo que… de ruim que tem… Que te prende, né?! Podê fica bem completo, bem à vontade, assim eu acho que tem como se conhecer…

E: Mas como que é isso?

Rosemeire: Sentir a Natureza…

E: Conhecer pra você é no sentido de sentir…

Rosemeire: De sentir…

E: De sentir. Cê esvazia a mente e o coração e aí cê é capaz de sentir a natureza, no meio dela, ou mesmo longe dela, cê é capaz de sentir e aí é esse conhecimento que importa…

Rosemeire: É!

E: Mas cê falô na ciência. Como é o modo de conhecer da ciência?

Rosemeire: Através de pesquisas, né?! De… de…. de… tá ino atrás… De tá na Natureza pesquisando o tipo de planta, de tá catalogando os animais, essas coisas assim …

E: Então, mas é diferente disso que cê tá falando?

Rosemeire: Esse conhecer que eu tô falano seria um conhecer assim… mais espiritual, uma coisa assim de sentí mesmo, de tá em contato. Agora tem também o conhecer que é também importante que é esse conhecer científico, né?! Pra você… você vê o que é que tá aí, o que quê a gente tem, né? Que também é importante.

E: Ham, Ham. Entendi. Mas você acha que é possível, assim, nesse conhecimento que cê fala espiritual, conhecimento de sentido, cê acha que é possível conhecer tudo sobre a Natureza?

Rosemeire: Não.

E: Não também? Da mesma forma que a ciência, esse modo de sentir, esse modo de conhecer sentindo, não é possível?

Rosemeire: Eu acho que não. Porque ninguém é totalmente… Ninguém consegue assim se libertar totalmente de tudo. Assim, sabe, ficá realmente livre assim pra conhecê, pra sentí a Natureza…

Esta aluna reconheceu também que o conhecimento científico é limitado principalmente quando os problemas são complexos/complicados:

A Natureza é complicada de entendê. O homem é complicado de entendê… A questão do cérebro humano, por exemplo. Ninguém entende assim 100%, por mais que a ciência teja estudando, teja evoluindo nos estudos, acho que não é uma coisa fácil de entendê. Assim, o mecanismo mesmo… É bem difícil… Bem difícil de entendê o corpo humano, a natureza, esse negócio de… assim, tudo mesmo! É uma coisa complexa de entendê, difícil, né? Complicado de entendê.

Ao comentar sobre a palavra “matéria”, Rosemeire mencionou que “A Natureza é espiritual, mas é física também”, mas para ela “é mais espírito do que matéria”. Ela criticou com ênfase a ação danosa do homem e disse que o ideal é “explorar sem destruir”, depois completou a sua fala dizendo que somente os índios procedem assim:

A Natureza, a mata, a floresta, é a casa dele. Eu acho que é o ser humano que tá mais aberto a contato com a Natureza para obter conhecimento dela, porque é o que mais tá livre dessas coisas de… de… do mundo, assim sabe, de… de… de coisas ruins, de dinheiro… de materialismo… Essas coisas. É o ser humano que tá mais aberto a receber conhecimento.

Ao ser questionada se o índio é “mais aberto” do que um cientista para receber conhecimento, Rosemeire respondeu positivamente: “Mais! Eu acho que mais que o cientista”. Para ela um cientista é um ser humano susceptível a ser corrompido pelo materialismo, pelo dinheiro e pela fama, tornando-o, portanto, menos susceptível, menos “aberto” para conhecer. Ela revelou também que a ciência, embora importante, tem um lado negativo associado à destruição da Natureza, mas não soube dar um exemplo.

Quando questionada se o conhecimento das mulheres que fazem o sabão de cinzas está mais próximo do conhecimento dos indígenas ou do conhecimento dos cientistas, Rosemeire disse:

Porque elas são mulheres assim, no meu ponto de vista, são mulheres mais simples. São mulheres criadas assim, sabe, no campo mesmo. Elas não têm contato assim direto com o que tá acontecendo, entende, elas são… são mais religiosas também, com certeza! Tem mais a religião. Tem mais fé em Deus. Porque é o que tá faltando muito no homem, né? Eles deixaram muito de acreditá…

Rosemeire viu os indígenas como mais distantes “dessas coisas do mundo (…) de coisas ruins, de dinheiro… De materialismo. Essas coisas (…)” e as mulheres que fazem o sabão de cinzas como não tendo “(…) contato direto assim com o que tá acontecendo”, mencionando a religiosidade dessas últimas, a “fé em Deus” como um fator importante “que tá faltando muito no homem”. Na fase 3 da entrevista, Rosemeire organizou as frases do Quadro 2 de acordo com três colunas: “Concordo”, “Não Concordo” e “Nem concordo e nem discordo”. Após a sua classificação, pedi a ela que procurasse dar uma ordem de prioridade para as mesmas e que começasse a comentar inicialmente a coluna do meio. As primeiras três frases colocadas por ela nessa coluna foram as frases 1, 3 e 8 do Quadro 2:

– “Mais do que ser estudada, ela (a Natureza) precisa ser sentida e precisa ser respeitada” (comentando a sua posição em relação à frase 1: “A natureza precisa ser estudada para sabermos mais”).

– “É que nem eu falei. Não é questão de ser difícil de ser compreendida. A gente só não dá a oportunidade para ela se fazer compreender. Só não se abre pra podê entendê tudo que ela tem pra nos mostrar” (comentando a frase 3: “A Natureza é difícil de ser compreendida”);

– “Eu vejo a Natureza como algo espiritual. Sim, que a gente pode se apoiá sim, que a gente pode buscá o conforto, que a gente pode buscá a paz, tranquilidade, mas assim não é algo sólido pra mim, é algo mais espiritual mesmo” (comentando a frase 8: “Eu vejo a Natureza como algo sólido, substancial e em que posso me apoiar”).

Já em relação às frases colocadas na coluna “Concordo”, Rosemeire reforçou a integração entre o mundo humano e o mundo espiritual na natureza (frase 10: “O mundo natural é tudo que existe, tudo que sempre existiu e tudo que sempre existirá”). Nesse contexto, o lado espiritual foi novamente reforçado como o mais importante (frase 6: “Eu vejo um lado espiritual na Natureza” e frase 5: “Eu vejo o trabalho de Deus na Natureza”).

III – Wesley

Wesley se mostrou sério e compenetrado durante sua entrevista, pensando bem antes de falar e organizar as palavras e sentenças. Tal como Messias e Rosemeire, ele também percebeu logo a relação das fotografias com a natureza, mas não quis arriscar uma definição para a mesma: “Não sei bem a definição certa não… Natureza são paisagens… A definição… Não sei não”. Ele também perguntou sobre o significado de algumas palavras, mas bem menos do que Messias e Rosemeire, e enquanto as classificava com meticulosidade sobre a mesa, começou também a organizá-las em grupos, de acordo com uma “sequência de fatos”, em suas próprias palavras.

A primeira palavra escolhida por Wesley na coluna “A Natureza é________” foi “poluída”. Ele pensou bastante antes de escolher essa palavra como a primeira a comentar e associou o desmatamento da natureza ao modo de produção capitalista tendo o homem como o grande vilão:

Devido às diversidades dela, devido a ter muitas coisas boas assim, o homem tá cada vez mais… Ah, o homem só quer saber sempre… com o lucro. Ele não quer nem saber com a natureza… com, com, como se diz… com os seus descendentes futuros. Ele só quer saber de ganhá dinheiro com essa… com essa vida. Ele não tá se preocupando com os seus… é … filhos, netos, bisnetos e daí pra frente… Ele só quer saber em arrecadá dinheiro e com isso ele tá cada vez mais poluindo a natureza. Rios… As empresas jogam cada vez mais, é… produtos tóxicos, é… também jogam agrotóxicos, poluem a água, estão desmatando ela também, causando vários efeitos aí. Não só onde é visível também, mas noutros lugares também. Nos Estados Unidos também só querem sabê de ganhá dinheiro. Têm vários países é… que tentam fazer acordo, mas eles sempre ficam de fora. É por aí…

A partir de seus comentários sobre a palavra “poluição”, Wesley foi associando as palavras que julgou estarem relacionadas, tais como “condenada”, “ameaçada”, etc. No trecho mostrado a seguir, quando analisou a palavra “misteriosa”, foi possível perceber o seu encadeamento de palavras relacionadas, assim como o que pensa sobre as limitações do conhecimento “dos estudiosos” da Natureza:

Wesley: Tem coisas que a gente não conhece sobre ela. Os pesquisadores que estão sempre pesquisando, tem coisas que eles não… não conseguiram encontrar a resposta. Por isso que ela é “inexplicável”; “complexa” também. Têm coisas que são de difícil entendimento… Sobre como ocorre. Ela é “imprevisível”. Imprevisível devido aos… Como se diz? Ela pode ocasionar terremotos, essas coisas… Mesmo as pessoas, os estudiosos que… que ficam estudando direto assim, não têm como prever o dia certo, a hora certa, os tremores lá, a onda que vem lá. A tsunami. São coisas imprevisíveis… Não tiveram como eles prevê… Por isso que ela é “possível de conhecer”… Possível de conhecer em partes, porque têm coisas que, como eu disse, é inexplicável.

Entrevistador (E): Tá, mas eu não entendo. Como pode ela ser inexplicável e ser possível de conhecer ao mesmo tempo?

Wesley: Não, inexplicável em alguns aspectos e possível de conhecer também outros. Porque têm coisas sem explicação, mas…

E: Mas essas coisas que não têm explicação, é possível conhecê-las um dia?

Wesley: Ah, eu creio que não.

E: Não?

Wesley: Ah, pode até conhecê mas vai levá muitos anos!

E: Vai levá muito tempo? Por quê?

Wesley: Ah, porque toda pesquisa demora tempo e tem muita coisa que mesmo cê pesquisando cê não consegue… Porque têm transformações que ocorrem em milhões e milhões de anos. Essas coisas, não tem como.

Na sequência de sua entrevista, Wesley mencionou que há coisas que são impossíveis de descobrir: “Como se diz, é… têm coisas que não tem como a pessoa descobrir não, mesmo na nossa vida, no nosso dia a dia assim…”. O trecho do diálogo seguinte procurou aprofundar esse aspecto, a partir de uma solicitação para que desse um exemplo:

Wesley: Se a gente surgiu de uma criação divina ou de uma explosão lá do Big-Bang. Não tem como provar, não tem como… têm os dois lados. Um independe de um. Os argumentos, é, são verdadeiros. Não, assim, que eles julgam verdadeiros [Fazendo os sinais de “aspas” com as mãos] Como é que a gente vai sabê? Não tem como, aí já vai mais da própria pessoa.

E: Qual lado cê acha? Que você tende mais? Cê tem mais tendência.

Wesley: [Colocando a mão na testa] Mais pro lado da ciência.

E: Pro lado da ciência?

Wesley: É.

E: Por que?

Wesley: Não! Deixa eu vê…

Nesse momento, Wesley começou a manifestar dúvida:

E: Quer dizer que entre a ideia de que Deus criou e a teoria do Big-Bang, cê acredita mais na teoria do Big-Bang?

Wesley: É, mas não tem como, porque se não tivesse Deus como que ia a criação… Se não houvesse a explosão, como é que ia sê criado tudo isso aí. Fico meio em dúvida também. Eu não sou nem a favor de um lado nem do outro.

Wesley então começou a questionar o conhecimento religioso, acentuando seu conflito:

E: Que quê ocê acredita?

Wesley: Ah, pra mim, assim, Deus criou. É… também eu queria sabê como que surgiu Deus, por isso que eu fico em dúvida.

E: [Risos].

Wesley: É uai… É uai. Se é que surgiu sozinho… Como que surgiu Deus? É. Como que ele surgiu?

E: Tudo bem. Ele pode até ter criado tudo, mas como que ele foi criado, né?

Wesley: É! É isso que eu fico… Não tem como. Tem coisa que cê não tem, não tem, não tem explicação. Mesmo cê tentando. Por mais que, supondo, cê vai pro lado da ciência, mas e Deus? Pro lado divino: e Deus, como é que ele foi criado? Se ele… Não tem como… Se ele não criou nem planeta, nada assim, ele já apareceu assim? Aí cê não sabe se foi a Terra que apareceu primeiro, se foi ele…

E: É. Muito bem. Pra ciência Deus existe?

Wesley: Acho que não. Não, Deus existe.

E: Pra Ciência…

Wesley: Não, acho que não. Pra ciência não [Acenando negativamente com a cabeça].

E: Acha sim ou não?

Wesley: Não [Acenando negativamente com a cabeça].

E: Não? Por que não?

Wesley: Uai, porque não? Porque a ciência sempre procura dá uma explicação é… usando, utilizando aspectos que têm no nosso mundo assim… Não se preocupa com religião.

E: Não se preocupa?

Wesley: Não se preocupa não. Não leva em conta.

E: Não leva em conta.

Os “aspectos” mencionados por Wesley em sua penúltima fala foram significados por ele como “fatos concretos”. Ele disse ainda que “o mundo é muito dinâmico”, que “jamais vai ser possível compreender tudo”, a não ser que fosse possível parar o tempo. Nessa discussão, ele também mostrou distinguir ficção de realidade. Ao analisar as palavras que selecionou para completar a sentença “A Natureza não é_______”, Wesley se posicionou novamente na direção da ciência, parecendo ter resolvido o seu conflito com o conhecimento religioso. A primeira palavra escolhida por ele nessa coluna foi “Divina”: “A Natureza não é divina”, disse ele. Ao ser questionado sobre o significado dessa palavra, ele disse: “Criação de Deus”. Perguntei novamente: “Pra você ela (a Natureza) não é?” E ele disse: “Não”.

Ele havia colocado a palavra “sagrada” na coluna de palavras pertencente à sentença “A Natureza não é”, mas decidiu mudá-la para a coluna de palavras da sentença “A Natureza é”. Perguntei a ele qual era o significado dessa palavra e ele disse que significava “uma coisa importante, que tem que respeitar”. Depois disso ele disse que a Natureza não é “espiritual”, mas sim “material”. Para ele também a Natureza não é “tudo de Bom” e não é “paz”.

O homem, para Wesley, não ocupa o mesmo lugar na Natureza como no pensamento de Rosemeire. Para esse aluno, o homem é visto como uma “ovelha negra” que interfere negativamente na natureza. Ao ser questionado se alguém pode descobrir coisas sobre a Natureza e que tipo de coisas, Wesley reforçou a sua ideia de como o conhecimento pode ser alcançado:

Através de muitos estudos… A partir de muita pesquisa… Analisando. Investigar, fazer dados, estatística. Comparar informações, dados, essas coisas assim.

Na fase 3 da entrevista, as primeiras frases do Quadro 2 que foram posicionadas por Wesley sobre a mesa são mostradas abaixo, reforçando que para ele a natureza é uma fonte material de recursos que precisa ser preservada:

1ª) A Natureza nos dá recursos muito importantes, tais como a água, a energia, os alimentos e os materiais para fazer as coisas.

2ª) Eu creio que a Natureza precisa ser preservada.

3ª) Sem as coisas que tiramos da Natureza não poderíamos ter o estilo de vida que temos hoje.

Após a apresentação dos dados acima, acerca dos alunos Messias, Rosemeire e Wesley, por favor, emita sua opinião para as questões abaixo:

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Por favor, clique abaixo para submeter suas respostas

PROSSIGA PARA: Texto 5 – O conceito de visão de mundo aplicado à educação em ciências